domingo, 16 de setembro de 2012

Biografia de Dom Sebastião (Rei de Portugal)

Sebastião, D. (1554 - 78) Rei de Portugal, cognominado O Desejado, nasceu em Lisboa, póstumo do príncipe D. João (1535-73). É uma das figuras míticas da nossa História. O seu nascimento e sobrevivência foram recebidos com entusiasmo, pois à data já eram falecidos todos os filhos do avô reinante, D. João III, pelo que a falta de um sucessor directo provocava as mais fortes inquietações, apesar de ainda serem vivos vários descendentes portugueses do seu bisavô, o rei D. Manuel I (o cardeal-infante D. Henrique, a infanta D. Maria, os filhos do infante D. Fernando - o Senhor D. Duarte, as Senhoras D. Maria, esta duquesa em Parma, e D. Catarina, esta duquesa de Bragança - e D. António, Prior do Crato, bastardo do infante D. Luís), para além de outros descendentes, por via feminina, em Espanha, Parma e Sabóia.
Morto D. João III (1557), a regência do Reino foi entregue à avó, D. Catarina de Áustria, e da
educação do jovem rei foram encarregados D. Aleixo de Menezes (tio) e o jesuíta P. Luís Gonçalves da Câmara (mestre), para além de outros professores, como Pedro Nunes (matemática) e Frei Amador Rebelo (mestre de escrita). Nesta primeira regência incentivava-se a colonização do Brasil e faz-se campanha contra os índios; o Colégio do Espírito Santo, em Évora, é transformado em Universidade; o Santo Ofício é introduzido em Goa; publicam-se pragmáticas contra o luxo no trajo, nas casas e na alimentação, etc.; em 1562 D. Catarina é substituída na regência por seu cunhado, o cardeal - infante D. Henrique, que, de imediato, instituiu o Conselho de Estado, aprovou os estatutos da Universidade de Évora e entregou aos jesuítas o controlo do Colégio das Artes na Universidade de Coimbra.

A maioridade do rei é declarada em 1568 e logo se instala uma separação
entre o regime anterior e o novo, afastando-se o monarca dos antigos regentes. A acentuada degradação da situação económica do país (fragilização da agricultura, com falta de mão-de-obra, inexistência de indústrias, concorrência e pressão das emergentes potências marítimas como a Holanda, a França e a Inglaterra, degradação da situação militar no Oriente e fragilização da segurança nos mares) impunham novas medidas. O país, porém, estava carenciado de um sólido corpo de funcionários régios, administradores e capitães, como o que notabilizara as primeiras décadas do século.
D. Sebastião, depois de em 1574 ter estado em Ceuta e Tânger, e apesar de forte resistência que encontrou à sua volta, optou pela consolidação da presença portuguesa no Norte de África, sem ter tido consciência da nova dinâmica marroquina, do poder do Islão na zona, e da degradação extrema das possibilidades do Reino. Decidido à intervenção, imediata, com o argumento de solucionar uma querela dinástica marroquina, o exército que arregimentou, onde avultavam mercenários e voluntários alemães, italianos e espanhóis, não oferecia garantias de qualquer êxito e a oposição de parte da nobreza assim o indicava.

Em Agosto de 1578, sob um sol escaldante, e confiando no seu destino, foi derrotado e desapareceu em Alcácer Quibir, deixando no campo de batalha milhares de mortos e cativos. O seu desaparecimento, a falta de sucessão directa, a angústia e a carga emotiva do momento, as histórias desencontradas, a devastação sofrida no exército, criavam à volta do rei desaparecido, mas que alguns afirmaram ter visto morto, uma lenda que o tempo se encarregaria de avolumar, fazendo-o entrar no imaginário popular não apenas em Portugal, mas também em Marrocos e no Brasil.
A falta de D. Sebastião complicou extraordinariamente o problema da independência nacional, pois o breve reinado do cardeal D. Henrique mais não foi do que um interregno que proporcionou a Filipe II de Espanha a organização das campanhas militar, diplomática e corruptora, que exerceu exemplarmente por forma a garantir-lhe a sucessão no trono do seu tio, o cardeal, de seu sobrinho, D. Sebastião, e de seu avô, D. Manuel I.

O mito sebástico ganhou, a partir daí, uma força marcante, provocando o aparecimento de aventureiros, um dos quais nem português falava, e de profetas anunciando o regresso do rei salvador das desgraças do país. Ainda em inícios do século XIX, existia a seita dos sebastianistas. O jovem rei entrou no imaginário popular como o herói intemporal e imortal, alimentando em cada esquina da História o sonho do retorno da grandeza e prosperidade que teimava em não regressar, e que, em verdade, bem discutível fora. Viram o Desejado em várias personalidades, em especial depois do advento das teorias liberais, em D. Miguel, Sidónio Pais, e até em Salazar, e, mais recentemente, depois do 25 de Abril, em diversos políticos que fugazmente se volatizaram, protagonistas históricos cujo estilo de governo se caracterizava quer pelo magnetismo carismático, muitas vezes pela impulsividade, ou apenas por momentâneas circunstâncias. Entre tantos outros o P. António Vieira, Bocarro, Teixeira de Pascoaes e Sampaio Bruno exprimiram, de modo diverso, o significado fundamental da lenda sebastianista, que assenta na crença profunda de uma missão de Portugal no mundo, bem como na necessidade, sempre adiada, do reencontro dos portugueses com os seus dirigentes, ou mesmo consigo próprios.

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